01/05/20

Primeiro de maio: as injustiças dos abatedouros

Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

O dia primeiro de maio é a data que nós nos conscientizamos sobre valor do trabalho de cada um em nossa sociedade, como também de todas as injustiças relacionadas na execução dos mesmos. Pouco se fala sobre o trabalho dos funcionários de abatedouros; e por isso, resolvi escrever sobre as injustiças daqueles que estão na linha de frente da produção do bife, do peito de frango, do pernil, do bacon e de qualquer produto proveniente de um animal que foi abatido e processado por esses funcionários. 

Quem são os funcionários de abatedouros?

Você conhece alguém que tem o sonho de trabalhar em abatedouros? Eu particularmente, não conheço ninguém. Dados indicam que é um trabalho com alta taxa de rotatividade nos EUA, mostrando que a maioria empregados ficam insatisfeitos com esse trabalho. 

Estima-se que mais de 750.000 pessoas trabalham como funcionários em abatedouros no Brasil e mais de 500.000 nos EUA. Nos EUA, grande parte dos funcionários são imigrantes e afrodescendentes que comumente não têm acesso às mesmas oportunidades que outras pessoas.    

Danos físicos e psicológicos  

Em uma recente artigo da BBC, um ex-funcionário de matadouro compartilhou seus sonhos de criança de ser veterinário e passar o dia com animais, infelizmente, esse sonho não se realizou e se tornou um funcionário de um abatedouro (link do artigo em português). Ele relata que sua primeira impressão foi muito impactante e para continuar a trabalhar, ele recorreu a desassociação, onde se tornou insensível a morte e sofrimento, para sobreviver e continuar a trabalhar naquele ambiente. Ele disse que o trabalho não causou danos corporais e sim psicológicos, sofreu de depressão e teve pensamentos suicidas decorrentes ao desgaste do trabalho e ao ambiente cercado por sofrimento e morte. Nessa mesma entrevista, o ex-funcionário expõe que muitos de seus colegas se tornam alcoólatras para fugir da realidade do abatedouro. Estudos mostram que os funcionários que trabalham na indústria da carne tem maior potencial de recorrer à violência e acredita-se que isso esteja ligado a crueldade vivenciada nesses ambientes hostis. A crueldade e maus-tratos aos animais está associada a violência contra humanos e essa conexão é conhecida como a Teoria do Elo (veja mais nesse texto).

Trabalhar em locais onde os animais estão apavorados ao presenciar a morte, jornadas exaustivas de trabalho, manuseio de facas afiadas e instrumentos cortantes, são fatores que propiciam alto número de ocorrência de acidentes de trabalho, que geralmente são subnotificados.

Para manter a alta demanda na cadeia de produção, muitos funcionários fazem o mesmo movimento por horas, causando lesões repetitivas em seus tendões que podem até acarretar em sequelas nos movimentos dos membros de forma definitiva. Pelo contato estreito com carcaças de animais, os funcionários estão mais expostos a contrair doenças provenientes de animais (doenças zoonóticas). Além disso, para desacelerar a decomposição da carne extraída das carcaças, os funcionários dos abatedouros tem que trabalhar em ambientes com temperaturas mais baixas e isso também influencia no bem-estar e saúde. 

Pandemia e abatedouros

A organização na linha de produção que compreende desde da seção destinada ao abate dos animais até as diversas seções que resultam cortes das diferentes partes da carcaça, faz com os  funcionários trabalhem de forma muito próxima e assim garantir a eficiência do sistema de produção de carne. Esse tipo de ambiente favorece a transmissão do vírus SARS-COV2 responsável pela COVID-19 e não é uma surpresa que muitos funcionários de abatedouros contraíram o vírus. A diminuição do número funcionários resultou a redução no abate dos animais. Uma das grandes redes de abatedouros dos EUA, Tyson Foods, recentemente alegou que iria reduzir sua produção a 20% de seus locais, e consequentemente, o presidente dos EUA reforçou em seu discurso de que abatedouros não podem interromper seus trabalhos. No entanto, forçar os funcionários a trabalharem em uma ambiente, onde não é possível garantir o distanciamento necessário para evitar a contaminação com o vírus SARS-COV2, está causando um grande estresse nos funcionários. Muitos deles estão receosos por suas vidas e se recusam a voltar a trabalhar nessas condições. 

O que acontece com os animais que não foram abatidos devido a Pandemia?

Infelizmente esses animais não foram resgatados de seu destino de sofrimento e crueldade. Com o fechamento de mais de 20 abatedouros nos EUA, calcula-se que mais de 2 milhões de animais foram mortos nas próprias fazendas. Se já é cruel o abate realizado nos abatedouros, você pode imaginar como esses animais estão sendo mortos? Para abater o grande número de  animais, as pessoas estão desligando os ventiladores onde ficam os animais e eles estão morrendo sufocados. Esses animais estão vivenciando uma morte agonizante e lenta. 

A sociedade como um trabalhador passivo de abatedouro

Entender a nossa responsabilidade de sustentar uma cadeia de produção que promove injustiças aos humanos e aos animais de outras espécies é imprescindível para o futuro de nossa sociedade. Mudanças de hábitos mais empáticos e sustentáveis ao nosso planeta, como também promover equidade nas oportunidades de empregos mais justos e livre de sofrimento para as pessoas, podem assegurar a saúde coletiva e a saúde em um contexto global.  

Refletir sobre a adesão ao veganismo pode ser um grande passo. Se você já é vegano, que tal participar do movimento de direitos dos animais e até unir forças com movimentos sociais para garantir direitos de todos? 

Espalhem empatia e compaixão. Afinal, não há outro planeta para escapar como plano B.

Fontes:

Clique nos links.


Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •